Nos vemos por aí, nos bares da vida!

Belo Horizonte já é, há muito tempo, a capital mundial dos botecos. A cidade possui, em média, um estabelecimento do ramo para cada conjunto de 170 pessoas, segundo o site Rank Brasil. No dia 25 de junho de 2009, corroborando o que todos já sabiam, foi publicada no Diário Oficial do Município de Belo Horizonte a sanção da Lei 9714, de 24 de junho de 2009, que declara Belo Horizonte como a Capital Mundial dos Botecos, entendendo-se como botecos todos os bares, restaurantes e assemelhados. A lei, originária do projeto 67/09, de autoria do vereador Alberto Rodrigues, estabelece ainda o Dia Municipal dos Botecos, a ser comemorado, anualmente, sempre no terceiro sábado do mês de maio. “Se não tem mar, vamos pro bar”, diz o ditado mineiro que convida a todos e já é bastante conhecido dos turistas que se encontraram nos bares da vida de BH.

A importância de associar a gastronomia local ao turismo é fortalecida em grandes festivais gastronômicos realizados na cidade, exemplos do sucesso que a vida e a comida mineira faz, atraindo um grande número de turistas, gerando emprego e renda. O município oferece ainda diversas outras opções de lazer em praças, festivais de danças, teatro, circo e exposições, o que transforma a cidade em um grande espaço cultural.

Ironicamente, a cidade detentora de tal título também concebeu uma lei que joga por terra sua manutenção. A Lei 9505/2008, que dispõe sobre o controle de ruídos, sons e vibrações no Município de Belo Horizonte e dá outras providências, bate de frente com a rotina dos bares e afins, dando causa a um enorme número de reclamações por parte de proprietários de estabelecimentos e demais envolvidos, entre eles, os músicos que se apresentam nestas casas.

FullSizeRenderNão obstante a atenção ao merecido descanso da população e o bom senso cabível em todas as instâncias do ser social, a convivência harmônica onde se respeitem direitos e se cumpram deveres deve ser discutida, buscada e aprimorada sempre para que possamos gozar de uma cidade abrangente e gerenosa quando falamos de diversidade cultural, por exemplo.


De forma direta, este impasse entre os excessos e o direito de exercer suas atividades tratados na lei, afeta os músicos da cidade, que dependem dos bares para trabalhar, e dá causa ao MBV-Movimento Nos Bares Da Vida, criado para reivindicar uma alteração na lei que trata do assunto, citada acima. Conversamos com o músico Zeca magrão, um dos integrantes do projeto. Zeca, que se define como um profissional que leva arte e cultura para o povo através da música, nasceu José Natividade Oliveira Paes Filho, tem 52 anos, Maranhense, e é pai de três filhos. Veio para belo Horizonte por conta do 1ªSeminário de Música instrumental organizado pelo guitarrista Toninho Horta, em Ouro Preto, em junho de 1986, onde estudou com Luciano Pimentel (Quinteto Violado) e Djalma Corrêa. Gostou, ficou e agora nos conta um pouco de sua trajetória.


Qual o papel da música na sua vida?
Através da música posso difundir a cultura levando a arte por onde eu passo, conhecendo novos lugares, países…

Você já trabalhou com diversos artistas conhecidos e em diversos lugares, inclusive fora do país. Nos fale sobre o seu trabalho musical.
Nesses 30 anos de BH, tive a oportunidade de trabalhar com vários nomes, entre eles Saulo Laranjeira, Rubinho Do Vale, Saldanha Rolim, Tizumba, D.Jandira, Marku Ribas, Dominguinhos, Pena Branca e Xavantinho, João Araujo, Sanduka, Paulinho Pedra Azul, entre outros. Em 99 fiz uma tournê na itália com Saldanha Rolim e Família Alcântara (João Monlevade), em 2004 morei durante 1 ano na Argentina, meu mais recente trabalho foi a gravação do último álbum do Jota Quest.

Desde sempre os músicos e artistas das várias áreas culturais enfrentam dificuldades em seus trabalhos, como você vê as possibilidades de incentivos à classe?
O primeiro passo para conseguirmos campo de trabalho é tentar tirar o músico da informalidade. Para isso temos que ter um Sindicato forte, coisa que ultimamente não acontece. Sem falar na OMB, que perdeu sua credibilidade.

O que você acha que poderia ser mudado no que já está bom?
Como eu falei, a primeira coisa a ser feita é fazer uma nova eleição no Sindicato para que propostas novas sejam colocadas em pratica, fazendo também com que a OMB volte a ser respeitada.

Como é trabalhar com música em Minas? Nos fale também sobre o relacionamento com os outros artistas.
Minas Gerais tem um campo de trabalho razoavelmente bom, acho que falta investimentos na área da cultura, não só da música mas como um todo. Penso que os músicos mineiros poderiam ser mais unidos, segundo o exemplo dos Baianos, onde o Gil fala da Gal, a Gal do Caetano, o Caetano do Ton Zé, e assim sucessivamente. Isso fortalece a música e a cultura de um povo.

11049524_1186361074710911_411025813279958201_n - Cópia - CópiaOs bares de Belo horizonte enfrentam atualmente um sério problema com relação à lei do silêncio. Inclusive vários músicos se uniram no “Movimento nos bares da vida” para reivindicar o direito de trabalhar. O que diz a lei e como ela pode prejudicar os músicos e o público em geral?
O MBV surgiu de um desabafo do cantor e compositor Sergio Marques, eu fiz um vídeo de apoio e este vídeo alcançou logo de cara 6 mil visualizações. Daí criamos o movimento e estamos pleiteando o aumento de 60 decibés para no minímo 80, pois a Lei 9.505/2008 foi criada sem nem sequer nós músicos termos sidos consultados, estamos sendo visto como fazedores de barulho e isso não é verdade!

Você é um dos integrantes do movimento, nos conte sobre  sua participação e como o divulgam.
Sou um dos integrantes e estamos buscando melhorias e reconhecimento para a nossa classe. Hoje o maior meio de divulgação é a internet através do Facebook.

Como foi a adesão por parte dos artistas e como cada um pode ajudar nesta causa? Os músicos são unidos?
Infelizmente a nossa classe não é unida! Muitos só pensam no seu proprio umbigo. Tenho esperança que em breve as coisas vão mudar e nós do MBV estamos trabalhando para isso.

Quais as suas expectativas para o futuro da cena local?
Bom, as minhas expectativas são boas mas isso depende da união da classe. Esse é um ano eleitoral e penso que se elegermos pelo menos dois vereadores músicos que realmente se comprometam a buscar melhorias para a causa o cenário cultural de BH pode mudar.

Qual a sua posição sobre a valorização dos músicos e seus trabalhos pelos contratantes?
Essa questão da valorização é complexa. Penso que se tivermos um Sindicato atuante onde possamos estabelecer uma tabela com um piso para que o músico, principalmente nos de bares, se apresentem, já estaria de bom tamanho. Outra questão que vamos tentar mudar é o couvert artístico onde o músico na maioria das vezes é roubado pelos donos de bares, com raras exceções. Temos que tentar criar uma Lei onde todo o couvert seja repassado ao músico.

Como você vê a eterna disputa cover X autoral?
Bem, nunca me vi nessa disputa mas continuo insistindo que se tivermos uma Lei que regularize o couvert será bom para todos.

De onde surgiu o brado “Vamo, Gente!!!” e o que você espera passar com ele?
O “vamo, genteeeeee!!!” é uma homenagem que faço ao saudoso e grande percussionista Moura. Ele sempre usava esse jargão. O “Vamo genteeeeeeee!!!” é uma espécie de empurrão, positividade, força. Vamo genteeeeeeeeeeeee!!!

Qual a história mais interessante acontecida com você como músico?
Tem várias mas uma ficou pra História da minha carreira. Em 1987, um ano depois que eu cheguei aqui em BH, abriu audição para músicos da Orquestra Sinfônica do Palácio Das Artes. Eu sequer tinha noção da difereça entre um percussionista de orquestra ou de um popular. Fiz a minha inscrição e fui para o grande dia. Quando cheguei lá me deparei com instrumentos que eu nunca tinha visto: xilofone, marimba de vidro, timpano, etc. (risos). Daí o maestro começou a fazer a chamada e os músicos executavam suas peças com suas partituras (sou autodidata até hoje). Quando de repente, eis que ele chama meu nome! Uma, duas, três vezes. Fiquei quetinho no meu canto, esperei passar uns cinco minutos, dei uma desculpa que fui ao banheiro e me mandei! (risos).

Você possui projetos paralelos?
Sim, tenho um projeto bacana chamado Bailão do Magrão onde montamos uma banda com Sergio Marques (Voz e violão), Adriano Fernandes (Voz e violão), Ivan Bahia (Percussão). Juninho Fiuza (Baixo), Luis Peixoto (Guitarra) e eu na percuteria. A cada um domingo do mês fazemos um show onde temos convidados especiais.

Quais são suas as expectativas e novos projetos?
Em breve irei lançar o projeto arte na praça onde irei buscar parcerias para levarmos arte para as periferías be BH. Vamo genteeeeeeeeeeeeee!!!






Deixe seu comentário sobre esse post:

Loading Facebook Comments ...

You must fill in your Livefyre SiteID in the Comments Evolved plugin options.

You must fill in your Disqus "shortname" in the Comments Evolved plugin options.

Deixe seu comentário sobre esse post:

No Trackbacks.