Um caldeirão de bruxas chamado de Panela Lisérgica

pedrocataldoPedro Cataldo é músico, compositor, guitarrista e violonista desde os 11 anos de idade. Também atua como produtor e agitador cultural desde 2007 . Mora em Belo Horizonte, é “quase” formado em história e completou suas 31 primaveras antes de nos conceder essa entrevista em que nos conta um pouco sobre sua empreitada pela música e suas viagens ao universo psicodélico das décadas de 60 e 70. Foi neles, naqueles anos, que os mosaicos das canções “loucas” e “subjetivas” ganharam  e fizeram a cabeça de toda uma geração de jovens. Ele fala também das bandas atuais do rock underground da cena local, do movimento Panela Lisérgica e dos novos rumos dos sons nos dias de hoje. Perca-se ou encontre-se nesse caldeirão de vontades e temperos, pois a rota está traçada pelos riffs e vozes caleidoscópicas, pela vertigem e pela mutação. Se você é louco o suficiente para viajar no tempo, mergulhe de cabeça nesse delírio! 


Como começou sua história com a música e quais projetos você participa atualmente?

Comecei a tocar aproximadamente com 11 anos de idade vendo meu pai tocar Roberto Carlos no violão. Tive acesso às cifras do rei através dele, que percebeu meu interesse pela musica e me deu um Tonante para aprendiz, a partir daí  passei a viajar sozinho no instrumento vendo as pessoas tocarem nas ruas e tal. Como sou canhoto, no começo tive dificuldades de entender isso, mas com o tempo consegui aprender a tocar ao contrario, com as cordas de cabeça pra baixo. Como eu era viciado em tocar, acabei aprendendo a dessa forma e não tive mais problemas em usar o violão dos outros rua afora.

Com 15 anos comecei a compor. Não entendia de onde vinha isso, mas sabia que podia fazer algo e que esse era o meu caminho. Não conseguia prestar atenção em mais nada a não ser na musica. Criei a primeira banda : Porta Pantográfica junto com os meus parceiros Thiago Marques, Bernardo Guerra, Hermano Faria e Yuri Lopes e fizemos varias apresentações em BH e região. Partcipávamos de quase tudo que rolava na UFMG, nos eventos do boteco da BIO, FAFICH, etc, foi um dos melhores períodos da minha vida. Fizemos muita musica nessa época e lançamos um EP. Infelizmente cada um foi para um lado e daí em diante continuei compondo, formei, em 2012, a banda Delírio Fantasma, que toco e componho até hoje.

Flyer do Festival Panela Lisérgica em 2015
Flyer do Festival Panela Lisérgica em 2015

Como surgiu o projeto Panela Lisérgica?

O projeto Panela Lisérgica nasceu a partir da idéia de aglomerar, em um único evento, todos as ramificações artísticas. A iniciativa partiu de bandas independentes e de agitadores culturais da cidade de Belo Horizonte que abriram espaço para bandas de rock autoral intervenções circenses, teatrais e exposições de artistas plásticos da nova geração. A idéia seria promover o encontro de propostas autorais, experimentais, psicodélicas, minimalistas e surreais, com fins de desvendar o núcleo vanguardista da cidade.

Porque Panela Lisérgica?

Primeiramente o nome seria CALDEIRÃO da BRUXA. E que a gente pensou: já que a ideia principal do projeto é abrir espaço pra qualquer tipo de manifestação artística, isso mais parece uma panela cheia de ingredientes e sabores, daí veio a ideia do nome Panela Lisérgica. Lisérgico porque no inicio eu queria fazer um movimento  em BH só com bandas de rock psicodélico e progressivo, depois vi que poderíamos fazer muito mais abrindo espaço pra todo mundo que faz arte nesse país.

Nos conte um pouco sobre o trabalho já realizado e por onde o projeto já passou.

O projeto é um coletivo de bandas autorais e fizemos parcerias com varias casas de shows, uma em cada região. Uma casa em Contagem, outra em Betim, uma em Sabará, uma em Ouro Preto e outras em BH. Cada casa estipula a porcentagem que sera revertida pras bandas, mas a ideia é fazer um movimento, movimentar os participantes do projeto e dar espaço para as bandas poderem sempre mostrar o trabalho e tocar. Funciona assim: quem tocou na casa em Betim no mês de agosto, não toca na casa de Betim em setembro e tem chances de tocar numa outra casa em Contagem ou BH. A ideia é fazer um rodízio pra que todas os participantes possam ter espaço e tocar em diversos lugares. Sempre faço uma chamada no grupo falando do dia do show e etc e cada projeto inclui 3 ou 4 bandas no máximo. Pra ficar justo com todas quem responder a chamada do show primeiro tem a vaga garantida. O objetivo do projeto é fortalecer a cena de rock autoral e fazer um movimento com bandas de rock, rock progressivo, rock 60 e 70, metal, punk rock, blues, experimental, instrumental, rock psicodélico e etc. Fazemos festivais com as bandas duas vezes por ano pra fortalecer ainda mais o movimento. Tudo isso está sendo realizado varias vezes por mês a um preço popular, já que o fácil acesso à cultura também é um princípio do projeto.

psicodelismo
Na era que antecedeu o Rock, anos 1950, Jack Kerouac, escritor de origem canadense e radicado na Califórnia, mencionou em seu livro On The Road, experiências musicais jazzísticas, de êxtase, mesclando atitudes de beatitudes católicas e budistas. Tudo isso aliado ao consumo de Benzedrina, uma droga vendida em farmácias, na época. A Beat Generation originou o movimento literário e filosófico que foi contemporâneo do Jazz. A ligação psicodelia e música talvez seja ainda muito mais antiga do que conhecemos. (wikipedia)

O movimento psicodélico dos anos 60|70 e suas vertentes como o rock progressivo, blues, experimental, instrumental, alternativo, etc trazem um sem número de representantes da música além de um incontestável legado cultural, fale um pouco sobre essa herança e suas influências.

Acho que esse movimento é uma avalanche criativa que faz parte de tudo o que a gente pensa e faz hoje em dia. É uma influencia direta, parece que a gente já nasce com isso dentro de nós, não tem como negar. O lance agora é pegar tudo isso e fazer um mexidão, uma panela lisérgica, e tentar desenvolver ainda mais o que a gente sente. Precisamos disso sempre, não tem como escapar. As décadas anteriores à nossa foram e sempre serão as maiores manifestações da arte e isso não tem como negar, temos que parar pra pensar e fazer algo pra não deixar a peteca cair.

À época de seu surgimento, o mundo vivia constante tensão e protestos em favor dos diretos civis, contra a Guerra no Vietnã, os primeiros avanços do movimento de liberação das mulheres e o dilema entre o liberalismo de mercado dos EUA e o socialismo estatal da URSS eram temas que inspiravam os jovens artistas em suas criações. Qual a temática de uma banda ligada ao movimento psicodélico hoje em dia?

Acho que não existe uma temática, uma prioridade, tudo que a gente sente, vê, ouve e etc, faz parte daquilo que uma hora ou outra vamos manifestar. Acho que surrealista é o mundo em que vivemos hoje, não existe explicações pra muitas coisas até hoje. Creio eu que na arte e na composição fazemos o uso desse vazio pra expor o que a gente sente, sempre foi assim: a inspiração vem de qualquer coisa, de dentro pra fora ou de fora pra dentro.

Muitas bandas que foram protagonistas do surgimento do psicodelismo foram levadas a outros estilos por conta de vários fatores como drogas e novas tendências musicais. Por outro lado, após mais de 50 anos ainda temos milhares de adeptos das alucinações musicais psicodélicas. A quê você atribui esta longevidade?

Acho que aquele tipo de musica, além de ter sido muito bem feita e maravilhosamente bem trabalhada o espirito daquela epoca foi a novidade, e se vc for pensar bem, não tem muito tempo que tudo isso que vivemos hoje foi criado e desenvolvido. O mundo evoluiu rapido, principalmente na tecnologia, de uns tempos pra cá. Acho que a  musica feita naquela época ja tinha um ponto de vista bem atual, eles ja faziam música com maestria e ja tinham em mãos muita informação. Parece os tempos de hoje só que com outra cara e visual. Penso que a vida é um espiral, a gente evolui, vai pra frente, mas no fundo estamos dando voltas ao redor de nós mesmos.

John Lennon foi sincero sobre a “coincidência” em “Lucy in the Sky with Diamonds”?

Sim, boto fé que sim… (risos)

Como o psicodelismo chegou por aqui?

Acho que o psicodelismo não chegou por aqui, ele já existia aqui nas primeiras experimentações e etc. O pessoal daqui só viajou um pouco mais quando chegou coisas da gringa, aí a parada ficou mais séria, mas se você for pensar, o Brasil é um país extremamente psicodélico, só parar pra ver e observar seus folclores, seu colorido, sua beleza e etc. Psicodélico de carne e alma!

deliriofantasmaQuais artista ou bandas desse estilo você destacaria na cena local?

Em BH eu destaco minha banda, Delírio Fantasma, Modulário, ELfos, Porta Pantográfica(2005 – 2010), Opus (Sabará), Mantra, Gravis Lapsus e gosto muito do Trembemditos também.

E quais as influências na cena atual?

Gosto de algumas bandas como O Terno, Temples, Tame Impala, Boogarins…

Você conhece o Festival PSICODÁLIA (psicodalia.mus.br) de Santa Catarina? Quais outros movimentos ligados ao psicodelismo e afins você pode citar?

PSICODÁLIA? Conheço demais! Já mandei varias vezes material pra eles e nada (risos)! Conheço o movimento do pessoal de São Paulo, pessoal do GARAJÃO DO JULIÃO e da galera da banda HAXIXINS e etc.

Como você vê a cena autoral de Belo Horizonte e região e quais as maiores dificuldades de uma banda de rock autoral? O que se pode fazer para fortalece-la?

Acho que a cena de BH está fraca, falta mais união. Acho que tem um pessoal que se destacou mais de uns tempos pra cá e se fechou numa espécie de coletivo. Gostaria que todos pudessem fazer algo juntos, a união faz a força! Não vejo isso em BH! Falta muito coisa pra fazer e por isso criei esse projeto mais underground, porque vi muito potencial  em algumas bandas que não se destacam. Também pra tentar nos unir com essas bandas, abrindo espaços e fazendo nosso próprio movimento, buscando reconhecimento.

Uma pergunta recorrente: como você vê a eterna disputa  cover X autoral?

Acho bobagem. Temos que fazer nossa música e criar público. Vender discos, correr atrás… porque aí sim vamos ter espaço e público pra ir nos nossos shows e etc. O cover sempre existiu e infelizmente não tem como enfrentar bandas de renome e que já fizeram sua historia. Temos que pensar em fazer nosso trabalho bem feito buscando fazer com que as pessoas gostem da nossa música também. Fazer nosso próprio movimento porque juntos somos mais fortes, sem depender de ninguém viagra auf rezept preis.

Como se dá seu processo de criação e como é a divulgação, a receptividade, etc?

Penso, logo existo… (risos) Vem do nada, sei la! Tô atoa num boteco e me vem umas ideias de musica e por aí vai… divulgo meu trabalho da mesma forma que todos hoje em dia, via Facebook, Whatsapp e etc, seja o que Deus quiser! (risos)

Qual a história mais interessante você poderia contar como músico? E o caso mais engraçado?

Foi quando estávamos tocando pra uma galera e na hora que fui cantar bati minha boca em cheio no microfone. Fiquei meio zonzo e caí em cima da bateria e do amplificador. Cortei minha boca em cheio!. Muita empolgação e álcool! (gargalhadas)

Numa analogia ao PL, o movimento Conexão Contagem Alternativa foi a solução encontrada pelas bandas de Contagem da década de 80/90 para divulgar seus trabalhos, como é o relacionamento com as outras bandas atualmente?

Hoje em dia somos um coletivo, uma mão lava a outra! Direto e reto entra uma banda interessada no projeto. Importante esclarecer sempre que o projeto é aberto a todos que quiserem tocar. Sempre que dá a gente desenvolve trabalhos juntos e fazemos contato. Isso é legal porque abre o leque e acaba que a gente chega em lugares que nunca imaginaríamos que iriamos pisar um dia.

Dá pra viver de música?

Ainda não… (risos) Mas a música sempre será uma eterna paixão. É como um casamento, um filho, nao desgruda nunca! Amor a primeira vista sempre!

E a relação com a internet? Tem site e /ou redes sociais? Quais os outros meios de divulgação?

O Panela Lisérgica tem uma página e um grupo no Facebook e um canal no Youtube. A Delírio Fantasma também tem paginas no Facebook, Soundcloud, Youtube e etc.

Quais são suas as expectativas e novos projetos?

Esse ano vamos gravar o primeiro disco oficial do Delírio Fantasma. Estou também com um novo projeto de rock mais pesado com influências de hard rock/grunge/punk, a banda se chama: De Ponta-Cabeça. Em breve vamos lançar 3 musicas, uma pagina no Facebook e muita música pra geral escutar, tomara que vocês gostem! O Panela Lisérgica esse ano vai desembolar um festival com todas as bandas que já participaram e muitas outras surpresas virão. Que 2016 seja um ano de amizade e parcerias. Precisamos nos unir e fazer com que nossas ideias se tornem realidade. BH tem muita banda foda e muito talento que, se depender de mim, não vamos desperdiçar e nem deixar a peteca cair. Foda-se essa família mineira! (risos) Abraços!



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