Conexão entrevista a banda Caxangá

A banda Caxangá, de Contagem, lançou recentemente seu primeiro álbum intitulado “A Porta do Mundo” e conta, numa entrevista com o guitarrista Marcelo Marzano, um pouco mais sobre este belo trabalho.


Marcelo Marzano, guitarrista de origem e natural de Contagem, com formação prática em música e técnica em Ciências Econômicas, trabalha na Eldorado Instrumentos Musicais e, entre um cliente e outro, os quais atende com total profissionalismo e educação, nos conta um pouco de seu trabalho com a Caxangá, banda autoral que lançou recentemente o álbum “A Porta do Mundo” através de lei de incentivo. Confira abaixo como foi esse papo virtual muito bacana!

CCA: Qual é a história da banda? Como foi o início e quanto tempo de estrada?

Caxangá: A banda foi formada em meados de 2014 e está na ativa desde então, o que dá 03 anos de estrada quase completos (em 2017). Começamos fazendo releituras de clássicos da MPB com um acento maior da linha regional e esse direcionamento preencheu todo o primeiro ano da banda. Em seu segundo ano, a banda começou a trabalhar suas composições e em 2016 lançou o álbum “A Porta do Mundo”, com 10 músicas autorais.

CCA: Fale sobre a formação atual e eventuais mudanças, caso tenha havido.

Caxangá: Não houve “baixas” no caminho. A única mudança se dá, na realidade, pela inclusão de mais um músico. Inicialmente, o Caxangá era um quarteto formado por Mariana Scapolatempore nos vocais, Glaydson Benevenuto na bateria, Beto Neves no baixo e Marcelo Marzano na guitarra. Com o passar do tempo, e principalmente à partir do momento em que a banda começa a trabalhar seu material autoral, ficou latente a necessidade de um percussionista. É onde surge Maurílio Badá.

CCA: Porque Caxangá?

Caxangá: É um nome fácil, que soa bem, ligado à cultura regional brasileira. Não tem um significado preciso, mas está ligado à jogos de escravos, à capoeira e está na língua tupi-guarani (significa “mata extensa”). Além disso, é o nome de uma canção de Milton Nascimento, que é uma de nossas referências musicais.

CCA: Vocês definem a banda como sendo de que cidade? Como é a cena musical local e o que acham que pode ser feito para que ela se fortaleça?

Caxangá: Caxangá é uma banda de Contagem. Seu embrião foi concebido aqui, seu desenvolvimento se dá à partir daqui, nosso QG é aqui. Com relação à cena local, não vejo nenhuma grande mudança nos últimos anos. O Fundo Municipal de Cultura acaba fomentando um pouco mas gostaria muito de ver a iniciativa privada poder trabalhar a cultura de forma sustentável, em âmbito profissional. Embora louváveis as ações de elementos específicos, trata-se de uma cena ainda muito informal, pouco estruturada, muito parecida com a dos anos 90. Mas creio que uma estruturação só será possível quando houver um desenvolvimento sócio-econômico maior, o que levará tempo. Enquanto isso, parabéns aos emuladores!

CCA: Vocês se enquadram em algum estilo musical específico?

Caxangá: Embora tenhamos na música regional brasileira nosso grande alicerce, não temos estilo definido. As influências são muito diversas, o que aparece já nas composições e se potencializa na hora dos arranjos. E acho que tamanho ecletismo não permitirá enquadramento algum.

CCA: Com relação às decisões, como são tomadas?

Caxangá: Em conjunto, sempre. E isso em todos os assuntos, artísticos ou burocráticos. E, apesar de todo mundo aqui ser bem palpiteiro, normalmente conseguimos consenso rapidamente.

CCA: Quais são as influências musicais da Caxangá?

Caxangá: São tantas que fica difícil de citar com precisão. Falando de forma extremamente grosseira, Mariana tem uma criação mais MPB, Glaydson vai do samba ao fusion, Beto passeia no Pop mas mora na MPB, Badá é ligado ao Congado e aos demais ritmos regionais e eu, apesar de ter um pé no Blues, ouço muito os caras do sopro do Jazz e o regional nordestino. Ou seja, é uma miscelânea.

CCA: Como é a rotina de ensaios? O pessoal leva a sério ou tem muito tombo?

Caxangá: Rotineiramente, os ensaios são semanais. Às vezes temos que pular um ou outro porque todos temos atividades paralelas que esporadicamente coincidem com o horário do ensaio. Por outro lado, quando temos algum projeto a ser realizado, como foi na época da produção do álbum “A Porta do Mundo”, essa frequência de ensaios fica bem maior. Posso dizer que não estamos por conta da banda, mas que temos comprometimento, não há dúvidas.

CCA: Quais as maiores dificuldades de uma banda no que se refere ao trabalho autoral?

Caxangá: Conseguir confeccionar um material de alto nível. Eis o dilema: você precisa tocar para conseguir gravar suas músicas ou seu clipe, mas você precisa das suas músicas gravadas ou do seu clipe para poder abrir espaços para tocar. Como cada artista tem seu contexto, acho importante que se conheça o que se tem e que se saiba aonde se quer chegar, para que assim se possa projetar o caminho. Mas ter um bom material em mãos é imprescindível para que se consiga atingir os poucos espaços abertos ao autoral.

CCA: E o processo de criação, divulgação, receptividade, etc, como é feito?

Caxangá: Na parte musical, de 2 formas: com relação às autorais, normalmente eu trago as composições e a banda arranja. Já as releituras são sugestões de todos e tocamos o que for consenso. Para as demais áreas, discutimos cada assunto em conjunto, definimos quem é responsável por cada tarefa e, quando o assunto está além do nosso conhecimento, vamos atrás de quem possa nos auxiliar, o que acontece com certa freqüência. Mas esses processos seguem dentro da simplicidade daquilo que é mais óbvio, como ter um site ou gravar um CD.

CCA: Quais os registros do trabalho a banda já gravou?

Caxangá: O principal registro foi a gravação do álbum “A Porta do Mundo”, em Setembro de 2016. São dez faixas autorais que traduzem perfeitamente as cores da banda. Além dele, existem registros “ao vivo” de fases distintas da banda.

CCA:  Tem as canções mais pedidas?

Caxangá: Taí uma coisa que, por vários motivos, não temos. Primeiro porque somos uma banda autoral relativamente nova; segundo porque o ecletismo do nosso trabalho diversifica muito a receptividade; terceiro porque, ao vivo, tocamos todas as músicas do álbum e algumas releituras, sendo que essas últimas podem ser trocadas de show prá show. Ou seja, se era prá ter “hit”, esquecemos de combinar.

CCA: Vocês conhecem bem a cena musical da RMBH? Quais bandas e/ou artistas você destacaria?

Caxangá: Conhecemos relativamente. Por causa de nossas atividades, alguns de nós estão mais envolvidos com a área musical de BH e outros nem tanto. Mas tem muita gente boa por aí, tanto no circuito comercial quanto no “alternativo”. E a cena pode até não estar como gostaríamos, mas não é por falta de talento. E em todos os segmentos: Thiago Delegado, Graveola e o Lixo Polifônico, Flávio Renegado, Alexandre da Mata e The Black Dogs são alguns dos que se destacam mais, mas tem músico bom em todo canto.

CCA: Como você vê a eterna disputa cover X autoral?

Caxangá: Não vejo: para todo pé torto tem um chinelo torto. O artista escolhe o que vai tocar, o público escolhe o que vai assistir, e cada um assume as consequências. Apesar de não tocarmos covers, o Caxangá, em seus shows, toca autorais e releituras, e nunca deu briga!

CCA: Algum(ns) show(s) merece(m) ser destacado(s)?

Caxangá: Acho que o show de lançamento do CD, no Teatro da Casa Azul, em outubro de 2016, foi um momento especial. Um show simples, sem nenhuma pirotecnia, mas musical. Isso é algo que sempre gratificará o artista: saber que ele convence pela arte.

CCA: Qual a história mais interessante aconteceu com a banda? E o caso mais engraçado?

Caxangá: Uma coisa interessante junta duas partes da história do Caxangá: quando a banda estava para ser formada, Mariana tinha sido mãe recentemente e não sabia se conseguiria assumir o posto naquele momento. Ela precisou de um certo tempo para poder criar condições de ensaiar e isso só ficou realmente resolvido uns 2 meses depois. Nesse hiato, estive procurando por um vocalista e o único que chegou a ser apresentado ao projeto é esse cidadão ilustre que hoje me entrevista. Fora isso, temos algumas coisas corriqueiras, como o dia em que a banda se distraiu com o belíssimo lanche montado em um camarim e esqueceu de voltar para o segundo bloco do show.

CCA: Vocês tem feito muitos shows?

Caxangá: Não. Tivemos férias forçadas nesse último período em virtude do Badá estar totalmente tomado pelo Carnaval de BH (ele faz parte do bloco Havaianas Usadas). Mas já retomamos os ensaios, pois temos 03 ou 04 datas já encaminhadas para o mês de Abril, todas em BH.

CCA: O movimento Conexão Contagem Alternativa foi a solução encontrada pelas bandas de Contagem da década de 80/90 para colher melhores resultados. Vocês tem parcerias com outras bandas?

Caxangá: Apesar de termos conhecimento com várias bandas, não temos nenhuma parceria efetiva. Eu conheci as bandas do movimento Conexão Contagem Alternativa e acho que, além de serem todas bandas do mesmo segmento, havia uma interseção de interesses que gerava combustão. Essa sinergia ainda não aconteceu ao nosso redor.

CCA: Dá pra viver de música?

Caxangá: Não dá para viver da banda, mas temos integrantes que vivem da música: o Glaydson é músico free-lancer, produtor e professor de música. O Badá também é músico profissional e professor. O Beto é luthier. O Marcelo trabalha em loja de instrumentos musicais. A Mariana, por outro lado, é professora de história.

CCA: Vocês lançaram um trabalho através do FMIC, como foi essa experiência? Quais os prós e contras desse(s) meio(s) de incentivo e o que poderia ser feito nesse sentido para que o fomento à cultura se tornasse mais viável?

Caxangá: Pelo lado da banda, foi excelente, e somos gratos. Com a verba disponibilizada, conseguimos gravar o álbum com qualidade e ainda fizemos duas boas apresentações. Acho que a grande benesse do incentivo cultural público nesse formato é estar aberto a todos. E mesmo com todas as críticas que lhe possam ser feitas, ainda fomentam. Por outro lado, com a potencialização recente de nossa antipatia à forma nefasta como é tratada a máquina pública, estamos sempre especulando apadrinhamentos, desvios de dinheiro, falsidade ideológica e etc. São efeitos colaterais da onda de corrupção que tomou conta deste país. Também não gosto desta dependência do aparelho público. Porque é que nesse país não conseguimos ser auto-suficientes? As pessoas devem ser responsáveis por suas coisas, deviam poder escolher o que fazer, e aí fariam melhor, etc. Mas existe uma simbiose maldita entre dominantes e dominados que precisa ser rompida. Essa é a mazela.

CCA: Como é a relação de vocês com a internet?

Caxangá: É uma relação minimalista. Temos nosso site www.caxanga.mus.br que é nossa única base virtual e estamos utilizando os serviços de “streaming” de plataformas como o Spotify, Google Play, Raphsody e Deezer.

CCA: Quais são suas as expectativas e novos projetos?

Caxangá: Temos um álbum em mãos que acreditamos traduzir toda a identidade musical da banda. O que espero prioritariamente para o ano é tocar muito, calejar mais esta banda e trazer esse material pulsando vivo para o público. Temos algumas portas abertas e precisamos fazer valer. E no 2º semestre, começar a trabalhar novo material autoral, pois para 2018, queremos outro álbum.

CCA: Certo. Agora a palavra é toda sua! Solte o verbo e deixe seu recado! Uma mensagem para as pessoas que acompanham o trabalho de vocês.

Caxangá: Em primeiro lugar, agradecemos ao Conexão Contagem Alternativa pela prosa, nesse que se tornou um canal para todos aqueles ligados à cena cultural de Contagem. Para os que tem interesse no som do Caxangá, informamos que o álbum “A Porta do Mundo” está disponível nas principais plataformas de “streaming”. Quem tiver interesse no CD, e só contatar via site ou telefone. Quanto aos shows, as datas serão informadas no site da banda tão logo sejam confirmadas. Nossos contatos também estão lá. Agradecemos a todos que tem apoiado a arte em geral. E que sigamos todos sem parar, pois “pedras que rolam…”


Conheça melhor a banda Caxangá através do site oficial: www.caxanga.mus.br

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