Estação Ferroviária

estacaoNo início do século XX um projeto de ligação entre Belo Horizonte e a Estrada de Ferro Oeste de Minas, na estação de Gonçalves Ferreira, foi o primeiro passo para o progresso da história de Contagem. Este é o nosso ponto de embarque no tempo, quando, sobre as rodas da locomotiva, descobriremos a história da estação de Bernardo Monteiro, no processo de implantação do trem de ferro em Minas Gerais.

No dia 12 de agosto de 1909, quando o projeto saiu do papel e os primeiros trilhos foram assentados no leito próximo ao terminal Henrique Galvão – atual cidade de Divinópolis, pelos trabalhadores da empresa Schonoor, que não economizavam esforços para construir o trecho Contagem – Henrique Galvão, o progresso começa a seguir o sentido do Município.

Primeiro trecho

Um ano depois de trabalho intenso, a empreiteira entregava, para inauguração no dia 29 de agosto de 1910, o percurso Belo Horizonte-Capela Nova de Betim, então distrito de Contagem, um dia histórico para a cidade, que recebia sua primeira estrada de ferro, passando a dispor de transporte ferroviário de cargas. As lideranças da época ficaram tão entusiasmadas que registraram o fato como uma nova era para o município.

Para a inauguração, foi convidada uma comissão de personalidades importantes, entre as quais estavam o presidente da República, Wenceslau Braz e um boletim foi distribuído em toda a região, com os seguintes dizeres:

“Inauguração da estrada de Ferro – Homenagem ao Mérito – A Comissão abaixo-assinada, desejando levar a efeito a justa e sincera demonstração de apreço, estima e alta consideração ao preclaro mineiro, Exmo. Sr. Dr. Wenceslau Braz e aos seus distintíssimos companheiros de excursão, pede o indispensável e valiosíssimo concurso dos bons, generosos e patrióticos contagenses, hoje, às 11 horas do dia, no lugar da futura estação férrea, denominado Lagoa Seca, onde os distintos e amáveis visitantes serão recebidos pelo povo do Distrito.

A Comissão, esperando ser atendida pela culta população do arraial, espera a presença de todos no lugar acima referido, confessando-se eternamente agradecida. – Contagem, 29 de agosto de 1910-(aa) João Teixeira Camargos. José Antônio da Costa Ferreira, Joaquim Candido Soares, Manoel de Pinho e Antônio Joaquim da Paixão”.
A Comissão presidencial teve uma recepção festiva, e em 17 de dezembro do mesmo ano, outro presidente, Bueno Brandão, em companhia de Arthur Bernardes e Chagas Dória, veio à cidade para inaugurar outro trecho, aproveitando para inspecionar as obras da estação, que já se encontrava quase concluída.

Progresso
No mês de março de 1911, começaram a correr os trens de passageiros, na cidade, prevendo um aumento ainda maior do progresso, quando fosse entregue ao tráfego o ramal férreo a dois quilômetros do centro de Contagem. A notícia foi publicada no jornal ‘Diário de Minas’, em 18 de maio de 1911, e informava a sensível melhora no tocante ao comércio e à indústria locais devido à instalação da ferrovia.

Por mais sete anos, os contagenses esperaram o projetado ramal férreo que, conforme balanço da administração Augusto Camargos, foi construído à custa da Municipalidade. Também surgia rumores de um projeto de uma estrada de rodagem para automóveis, “trole” e outros veículos, para transporte de passageiro e carga, estava sendo estudado e isso ameaça o transporte de trem.

Estação

Em setembro de 1918, finalmente foi concluído o ramal ligando estação Bernardo Monteiro até o centro do município. Mas a manobra de ré das máquinas era complicada, para atingir a nova estação, que passou a se denominar “Contagem”, hoje onde é localizado o Fórum de Contagem, enquanto a do entroncamento ganhou o nome de “Bernardo Monteiro”.
Acontece que, no dia da inauguração – 21 de outubro de 1918 – um inesperado agravamento do surto da gripe espanhola atingia Contagem, o que obrigou o cancelamento da festa, que seria marcada pelo recebimento do pri- meiro trem suburbano de passageiros, que ligaria os municípios.

Mas a partir de 1924, o transporte ferroviário iniciou um processo de decadência, com o aumento da circulação das linhas de ônibus, mais rápidos e mais baratos, afastando os passageiros, muito embora o transporte de cargas continuasse ativo, inclusive tendo sido fator determinante para a implantação do Parque Industrial em território contagense (Cidade Industrial Coronel Juventino Dias), pela facilidade da chegada da matéria prima e escoamento da produção.

Marco histórico está abandonado

Próxima de completar 96 anos, a estação do Bernardo Monteiro pode vir a ser tombada como patrimônio histórico da humanidade. A informação é da Secretaria de Patrimônio Histórico e Cultural de Contagem, que garante que a documentação para o tombamento já está sendo preparada, para dar entrada no processo, ainda que não haja um projeto para sua utilização futura.

Pertencente à Rede Ferroviária Federal S.A, que a administrou até 1996, a quase centenária estação, continua em atividade, claro que não mais recebendo e despachando passageiros e cargas como no passado, mas arrendada pela Ferrovia Centro Atlântica -FCA, que a utiliza como ponto de apoio à Segurança Patrimonial da Estrada de Ferro Vale do Rio Doce, sendo um posto de parada do trem de carga da empresa.

Mas uma ameaça nasce aos pés da estação, que um dia foi sinônimo da chegada do progresso na cidade. Um matagal cresce desordenadamente nos fundos da estação e em pouco tempo poderá cobrir a arquitetura quase centenária da casa, que tem as paredes todas pichadas, o telhado com muitas falhas na cobertura, um descaso que faz com que a história da Estação Bernardo Monteiro e um pedaço marcante da vida de Contagem corram o risco de desaparecer.

Estação foi palco da ira de um governador

Além de sua importância econômica à época, a Estação Bernardo Monteiro também foi palco de uma passagem nada agradável para a história de Contagem, pois naquele local foi tomada a decisão de rebaixar o município à condição de distrito, pelo então governador Benedito Valadares.

O ano era 1938 – mas não há registro do mês – quando, numa manhã de terça-feira, o governador telegrafou ao prefeito da cidade, José da Rocha Cunha, dizendo que, na quinta-feira, às 13 horas, estaria na estação de Bernardo Monteiro, onde permaneceria por 30 minutos, antes de passar rapidamente por Betim, em direção a Pará de Minas, sua terra natal.

Reação
O prefeito não tomou qualquer conhecimento e quando o trem chegou, só havia o chefe da estação para receber o governador. Revoltado, o governador Benedito Valadares ordenou que o trem seguisse imediatamente para Betim, onde foi recebido com festa, banda de música, escolares e populares, lá permanecendo por quase uma hora.

O governador passou o final de semana em Pará de Minas, mas não se esqueceu da ofensa e na segunda-feira, através do programa noturno de rádio “Hora do Brasil”, Benedito Valadares anunciou a destituição de Contagem como município, rebaixando-o a condição de distrito de Betim, que foi elevado à categoria de cidade naquele mesmo dia.

A Estação e a Conexão Contagem Alternativa

A Estação Bernardo Monteiro foi um dos cenários da gravação da banda Urbi Et Orbi em 1991. O clipe, que traz ainda imagens de vários outros pontos culturais de Contagem, pode ser conferido aqui: